








Casa Luz
Local: Condomínio Capital Ville, Jundiaí, SP
Área construção: 264 m²
Área terreno: 1.956 m²
Ano: 2019
Engenharia: Luis Flávio Tedesco Pinheiro
Logo na primeira visita, ficou evidente: o terreno era um desafio.
O lote apresenta declive acentuado e é tomado, em toda a sua extensão, por árvores de grande porte. Qualquer intervenção minimamente sensata ali precisaria respeitar o que já existia.
Caminhando pelo terreno, especialmente nas áreas mais baixas, a leitura se tornava clara. O ambiente ficava mais úmido e quente, com pouca incidência de sol e maior presença de insetos. Não era um lugar confortável para permanecer. A casa precisaria se afastar do chão, buscar ar, luz e melhores condições de habitar.
A partir disso, surgiu a premissa central do projeto: preservar a topografia original e manter o maior número possível de árvores. A casa não deveria competir com o terreno, mas se acomodar a ele, misturando-se à vegetação e construindo uma relação direta com a paisagem.
Na frente do lote, a inclinação se intensifica, chegando a cerca de 60%, o que dificulta o acesso e a execução da obra. A escolha pela estrutura metálica nasce dessa condição: um sistema construtivo mais ágil, preciso e compatível com um terreno de difícil acesso, permitindo reduzir interferências durante a construção.
A casa é pensada como um volume suspenso, flutuando entre as árvores. O acesso acontece por dois percursos elevados: uma passarela para pedestres e outra para veículos. O percurso conduz o visitante para dentro da mata, criando uma transição clara entre a cidade e a natureza.
A chegada é direta, no nível da rua, sem desníveis, levando à varanda gourmet, o espaço mais social da casa. Um lugar pensado para encontros, recepções e eventos, com vista aberta para a vegetação, ventilação constante e posição privilegiada no terreno.
Ao descer a escada, o projeto revela sua organização não convencional. No pavimento inferior está concentrada toda a vida cotidiana da casa, com os ambientes organizados em um único nível. Mesmo abaixo do nível da rua, este pavimento permanece totalmente suspenso, chegando a mais de sete metros acima do solo. A sensação é de imersão na paisagem, com vista para a mata e maior intimidade com o entorno.
A casa foi implantada quase toda voltada para a fachada norte, buscando maior incidência de sol ao longo do ano. Em um terreno marcado pelo excesso de sombra, essa decisão foi fundamental para garantir conforto térmico, maior iluminação natural e abertura para as melhores vistas, voltadas para o fundo do lote.
A luz e a sombra são características marcantes do lugar. Áreas muito escuras se alternam com pontos de luz filtrada pela vegetação. A casa traduz essa condição usando apenas dois materiais: o metal escuro e liso, associado à sombra, e o concreto aparente, claro e áspero, associado à luz. Luz e sombra deixam de ser apenas condição do lugar e passam a definir a própria arquitetura.
Os beirais vazados e permeáveis permitem a passagem do ar, da luz e das visadas para a copa das árvores. Em alguns pontos, as árvores atravessam o volume construído, deixando claro que a casa foi posicionada para existir entre elas, e não no lugar delas.
O uso de pisos em tela metálica, presente em diferentes pontos do projeto, reforça essa relação, permitindo ver o jardim sob os pés e mantendo a permeabilidade visual e a ventilação.
Mais do que um objeto arquitetônico, esta casa se constrói como uma experiência de integração com a natureza. Uma arquitetura que dialoga com o terreno e se constrói a partir das condições do lugar.